Como era a atuação/inserção da base dentro da sua cidade e dentro do circuito de arte no Brasil na época das atividades?

BASE
Vitor Cesar

De uma maneira mais descritiva e sucinta, uma definição da BASE seria:
Um espaço destinado à discussão, produção e circulação de práticas artísticas, localizado numa casa na área central da cidade de Fortaleza. Organizado pelos integrantes da Transição Listrada – Renan Costa Lima, Rodrigo Costa Lima e Vitor Cesar – o projeto aconteceu entre 2002 e 2004.

Falar da BASE implica inevitavelmente numa reflexão com as ferramentas que disponho hoje para contar sobre o que aconteceu na época das atividades. Neste caso, não me sinto capaz de estabelecer um distanciamento crítico que pudesse pressupor uma suposta neutralidade em relação a experiência que tive na BASE. Portanto, me parece que escrever sobre a BASE hoje é atualizá-la, somar estas novas ferramentas às que existiam naquele momento.

Fortaleza no inicio dos anos 2000 passou por uma transformação no circuito cultural e conseqüentemente no meio de artes visuais. Isto se deu principalmente com a inauguração do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, que abrigou grandes exposições, shows e espetáculos que circulavam no país. Além dele, é fundamental ressaltar a criação do Alpendre, espaço interdisciplinar que teve atuação decisiva na formação de artistas da cidade por meio de grupos de estudos. Na cidade, até então sem escolas de artes visuais, cinema e design, esses dois equipamentos promoveram contatos e inquietaram um grupo de artistas, cineastas, escritores, músicos e intelectuais locais. A BASE surgiu nesse contexto: não como uma alternativa aos espaços institucionais, mas para desempenhar um outro papel, mais voltado para, de algum modo, evidenciar as inquietações.

Não existia uma clareza por parte dos integrantes quanto aos objetivos da BASE. Tudo foi feito e organizado a partir de respostas aos contextos imediatos da cidade e do desejo de novas associações entre diferentes grupos. Os procedimentos foram permeados pelo que chamaria de não-profissionalismo, fundamental para a constituição da BASE como um espaço agregador. Neste caso, o não-profissionalismo não significa a falta de comprometimento. Trata-se de reconhecer que o surgimento e a atuação da BASE não respondiam diretamente à demanda do circuito artístico, seja por interesses institucionais ou de mercado. E isto não acontecia por conta de uma possível crítica ao circuito, mas até mesmo por um certo desconhecimento dele – portanto não existiam muitos motivos que esse circuito pudesse pautar a produção. Comprometimento havia bastante. Durante os dois anos de atividades, realizamos exposições, mostras de vídeos, palestras, conversas e festas, tudo custeado pelos integrantes da casa e pelos artistas colaboradores, com eventuais pequenos apoios.

Com o andamento do projeto, foi inevitável o contato com alguns artistas de outros lugares do Brasil. A BASE se tornou uma espécie de pretexto ou espaço de boas vindas para avizinhar-se de alguns artistas que estavam de passagem na cidade por conta de outros projetos.

A BASE foi uma resposta à cidade, com o interesse na visibilidade de questões debatidas por grupos de pessoas de diversas áreas – artes visuais, arquitetura, vídeo, musica. Por isso, sua natureza era reconhecidamente específica, pois tratava principalmente de práticas artísticas, e de certo modo restrita, porque não dava conta (e nunca pretendeu dar) de toda a cidade. Ainda assim, era um espaço que se abria para novos grupos e públicos. A atuação da BASE se deu como uma tentativa de criar modos de estabelecer espaços públicos – e aí temos espaço no sentido de meios –de discussão sobre assuntos e questões que atravessavam Fortaleza na época.